sábado, 9 de dezembro de 2017

o guarda-rios

«Toda a noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és talvez alguém que se finou!...»

Florbela Espanca

guarda-rios, foto da net


*o guarda-rios*

Já não sei
quantos rios foram meus.

As águas formam correntes 
nas veias e dispersam as margens do tempo

Ao largo passam barcos 
carregados de sonhos

E o Solitário guarda-rios
de lodo no cais
faz-lhes sinais para acostarem
e com eles o levarem
mas dizem-lhe que não há mais lugar.

LuísM_09.12.2017

sábado, 2 de dezembro de 2017

mãos sujas

tuas mãos sujas da terra
são mais dignas
que as limpas da guerra.

oh, hastes vergadas em mim
de só baixar a cabeça
a plantar um jardim.

LuísM_02.12.2017


sábado, 18 de novembro de 2017

achamento

“…cuando abrimos los ojos, ellos tenían la tierra y nosotros teníamos la Biblia…”
EG




"El descubrimiento


En 1492, los nativos descubrieron que eran indios,
descubrieron que vivían en América,
descubrieron que estaban desnudos,
descubrieron que existía el pecado,
descubrieron que debían obediencia a un rey y a una reina de otro mundo y a un dios de otro cielo,
y que ese dios había inventado la culpa y el vestido
y había mandado que fuera quemado vivo quien adorara al sol y a la luna y a la tierra y a la lluvia que la moja."
Eduardo Galeano “Los hijos de los días” Ed. Siglo XXI de España Editores – 2012©I ISBN 978-84-323-1627-2

......

"só sei que nada sei"
confúcio
.......

*achamento*

a descoberta
aos olhares
coberta

do que estava
além-mar
e meta

antes sonho
(ou visão) e 
fim medonho

caravelas 
cegas
de vento e velas

e terras
povos
e guerras

e a religião
arma
da expansão

da conquista
e da escravidão

há quem veja
civilização...

ainda 
como outros
sem pedirem perdão.
LuísM  

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

novembro_16



BENJAMIN THOMAS KENNINGTON   

*ao meu amor*

em lugar da flor
o beijo
em lugar do sonho
o desejo
e um sorriso
por inteiro
como se este dia
fosse todo nosso
outro
novamente.

aquele outono
era igual
no calor dos corpos
e no sentimento
a espreitar.

e o mar presente
no teu olhar
despertada paixão
que se fez lar.

(hoje não voltarei ao guincho
para ver o sol guardado do passado... 
mas volto a ti.)







quinta-feira, 9 de novembro de 2017

as horas redondas


ouves a minha voz?
ouves o cantar dos pássaros
nas árvores despidas?
ouves os teus sonhos adormecidos
nas noites sem corpo?
ouves os ribeiros sem cascatas
na secura dos desejos?
ouves o soprar do vento agreste
na pele crispada?
ouves o bater do mar agitado
a cantar tristezas?
ouves o trovão do desespero
a anunciar a desilusão?
ouves as folhas secas pisadas
dos meus passos?

não há aqui nada para alguém 
como eu
a não seres tu
meu meigo e maravilhoso amor...

que dizer da poesia
na manhã inocente
deste dia?

que o sol brilha e
a claridade do olhar
é reflexo da utopia?

- ah, !!!

a chuva seria 
poema
em gotas de alegria

e por tudo
compaixão e companhia

do mais
tudo é secundário.