segunda-feira, 21 de agosto de 2017

contra-luz



tinhas o sorriso preso ao olhar
e nesses olhos um pôr-do-sol
a bailar.
junto à falésia e ao fundo o mar
cruzaste o horizonte sentada
entre plantas verdejantes e raios de contra-luz.
não sei o que pensei ou sequer se o mundo era habitável em mim.
tudo ficou suspenso no tempo.
esse tempo dum só momento
dum só desejo.
dum juramento.
só me lembro que se houvesse um paraíso
ele seria aqui.
e nele poderia viver eternamente...


domingo, 13 de agosto de 2017

janela de poesia

Pôs-se à janela
parei, olhei-a e...
casei com ela.
.....

Não sei o que seria
esse olhar sem poesia
mas sei, meu amor
o que sem ti que dor
teria.

Isolo o pensamento
na dispersão do vento
e a mim chegam dias
dos poemas que dizias.

Hoje, tudo é diferente
nessa janela sem gente
de sonhos já tão curtos
e sombras dos nossos lutos.

Que importa tal leveza
se ainda vejo beleza
no dia que amanhece
e na noite que se tece?

basta-me na escuridão
a pequena chama
da vela na mão.


domingo, 30 de julho de 2017

holograma



quisera tão só ser o momento 
que não o do desprendimento.

quisera...
emergir o tacto entre as doces águas 
prender os abrunhosos seios à raiz do pensamento
reter a curta hora no minuto longo do nosso tempo
absorver a tarde clara até ao lusco-fusco da existência
(e gravar, nesse crepúsculo, toda a eternidade)
e por fim, do teu traslúcido  olhar
conservar em boião de olfacto
a noite de luar.

quisera...
mas o céu fez-se chama
e o ar que me tocou
era duma estrela cadente em holograma
que, sem o saber, quase passou,
qual quimera
e logo, logo, se apagou.

(à minha amiga Helena, ausente)

[Nota: Mantém-se o impedimento de publicar comentários noutros blogs, com erro na configuração da conta de e-mail, que não sei como resolver.]


segunda-feira, 24 de julho de 2017

prado de sombras


Neste porto de águas profundas
os embarques são lágrimas caídas
como cerejas no chão amadurecidas
sem ninguém para as saborear.

Sem regresso, partem imagens
de corpos, que fizeram sentido
e, na mais pura solidão
cumprem um destino, nos caminhos
que outros não adivinharão.

São sombras perdidas no prado
onde a luz desliza suavemente
para impedir toda a imortalidade.




segunda-feira, 17 de julho de 2017

passagem




foi tão breve esta passagem
entre vós
tão breve este amanhecer
que o ocaso já se aproxima
como se a vida neste mundo
fosse um só dia de crescimento.

não tive tempo de as minhas palavras

- tão poucas que elas foram -
chegassem ao vosso coração.

valeu a pena, mesmo assim, esta intenção.


se, um dia, casualmente

sentirdes  uma breve e suave brisa acariciando o vosso rosto
pensai que serão essas palavras a tocarem-vos em voos de compaixão.