sexta-feira, 23 de junho de 2017

pinhal interior_natureza morta


ardem as palavras 
incendiadas
na dor.

e sem fuga
no meio do terror
o grito cercado
desesperado
em turbilhão.

vidas em fogo
destruídas
sem compaixão.

entre o céu e a terra
as labaredas da nossa
incompreensão...



sábado, 10 de junho de 2017

deste nosso mundo

andre kohn

esta noite
todos os cantos são redondos
aos ouvidos e ao olhar
todos os sinais
são​ presentes
na presença do teu corpo
que adivinho
no interior deste amar.

esta noite
hás-de estar ao chegar
sem espera no tardar
e hás-de despir o preconceito
de dar
e receber
esta música
da pele a cantar.

esta noite
o nosso mundo é uma concha
e nada nos deverá perturbar.


[Nota: Um arreliante problema criado por recentes actualizaçõs do Google impedem-me de publicar comentários.

Pelo facto peço as m/desculpas.]


quarta-feira, 31 de maio de 2017

nos braços de morfeu



Morfeu e Íris
Por Pierre-Narcisse Guérin, 1811


traço o descanso do corpo
na geometria da noite
e deixo correr a mente
na insustentável leveza 
em voos de animação
onde estando me ausento
numa viagem de suspensão.

chegado o dia, caem os anjos

aos pés da cama e adormecem
em acalmia.


domingo, 28 de maio de 2017

sábado, 27 de maio de 2017

sinais...




Era um piar desesperado, em voos de agitação, da sala para o pátio interior e deste para o exterior onde, por uma janela gradeada, mas sem vidros ou portais, entrava de novo na sala.
Daqui, sem portas, voltava novamente ao pátio e poisava num muro limitador.
Revirava o pescoço nos dois sentidos e lançava ao ar toda a angústia, no chamamento de algo.
O meu pensamento, perante este insólito acontecimento, era de que a minha presença estava a incomodar este ser, sem outra razão.
E era compreensível. O barulho que fazia ao limpar os quintais das ervas daninhas, o cortar e podar árvores, o varrer o lixo acumulado no interior, aliado ao pó estampado no chão, davam aquelas duas horas um cenário de guerra.
Foi quando, já no final desta tarefa, ao recolher mais um destroço, dentro dum balde caído, no pátio onde o pássaro continuava em total desassossego, que encontrei, escondido dentro desse balde e por baixo do fragmento de telha, em plástico, a minha total surpresa:
um filhote, de pelugem negra, rabo ainda curto e bem alimentado.
Sem piar e responder aos chamamentos da mãe, mantinha-se imóvel, adivinhando qualquer perigo à sua existência.
Talvez a sua ainda curta vida lhe tenha ensinado os perigos nas incursões de vários felinos.
Os gatos faziam dali território privilegiado na caça e procriação.
Segurei-o com a mão mas, logo em seguida, escapou-se-me. Ligeiro sobrevoou rasteiro para dentro da sala.
Apanhei-o, de novo, e olhando em volta, na escuridão do fumo agarrado às paredes, descobri, por sobre uma janela protegida da intempérie, com vidro,   no que anteriormente tinha sido uma caixa de estore, um ninho encostado a um canto.
Peguei numa numa velha cadeira e com as pernas a tremer (creio do móvel), subindo-a, depositei aquela preciosa carga, dentro do ninho.
Seguidamente, saí, fechando a porta da entrada no pátio e entrei no carro, estacionado em frente à casa.
Fiquei à espera. Logo depois, a mãe veio a voar pousando no gradeamento da janela, que lhe dava acesso à sala e... ao seu tesouro. 
Olhou para mim, alguns momentos que me pareceram tão curtos para tanta felicidade minha e...entrou.
Ainda esperei alguns minutos antes de me vir embora.
E, nesses minutos, a minha alegria era imensa ao ver vida, onde antes
houve morte. O dono da casa pereceu ali, naquela sala, intoxicado por incêndio inadvertido.

Amanhã vou espreitar e saber se está tudo bem...