quarta-feira, 22 de outubro de 2014

a taça

taça Wicca

Na minha taça há um sonho não bebido,
uma qualquer essência dilatada, 
mas não transbordada.
Há um grito ou um gemido,
ali escondido,
preso ao metal,
que não se solta nem me faz mal.
É desse sonho que me alimento
- olhando a taça à distância dum lamento -
não o bebendo, matando a sede só de olhar
e esse grito ou gemido vem-me falar, 
comigo só e só comigo...... e esse sonho é meu amigo!


terça-feira, 21 de outubro de 2014

marés vivas III

 foto: luís castanheira - artesanato
Vestido de horas incertas
nesse mar, que confundido,
os teus olhos quer beijar,
não te quer achar perdido
e a ti se pretende juntar.
Uma mão cheia de nada,
numa noite sem alvorada,
é a solidão que ora apertas.
Corpo de mágoas fendido

sob o manto da indiferença
deitas-te no colo do mar
no sonho de ele te amar.



sábado, 18 de outubro de 2014

marés vivas II

nocturnas praxes em praia sem luar
onde os jovens sonhos veem morrer
asas de destino tocadas pelo mar
nas ondas de dor, do tempo a sofrer.

( Meco, um ano após -16.dez.2013 -
  homenagem  aos que ficaram sós)



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Equador

Paquete "Quanza"

I

Era um navio, um quase barco a vapor
nele, a criança cruzava a linha do equador 
o "Quanza", velho, num lento navegar, 
e como guias, os golfinhos a acompanhar
além de prateados peixes-voadores a saltitar.

E o menino, deitado no convés, contemplava, 
pelo orifício da âncora, entre o passar das horas,
do ar e do mar, aqueles seres, que tanto o alegrava.

Sem solidão, deles tornar-se-ia seu irmão! 


foto: luís castanheira
II

Um chão de mar estendido ao olhar
e o "Quanza" a lamentar o seu vagar
esse  navio, quase barco  a vapor
ao meio-dia, a travessia da linha do equador


e os olhos de mudança, na criança
que à proa, entre a aberta da âncora
deitada, debruçada, espreitava
os  golfinhos, lado a lado a acompanhar 
a quilha no seu lento e suave navegar.

Como era belo o sonho na descoberta
da liberdade entre a inocência e a coberta
e uma terra lá, ainda longe, à espera como meta.


III

Um chão de mar estendido ao olhar
e o "Quanza" a lamentar o seu vagar
os olhos de criança no rumo da mudança 
desse  navio, um quase barco  a vapor
na travessia, do meio-dia, e  equador
o reflexo do sol na água em bonança

O céu azul, linha de costa à vista e calor
horas passadas, deslumbradas de amor
silhueta deitada, debruçada, a espreitar
os  golfinhos, lado a lado a acompanhar 
a quilha no seu lento e suave navegar
lavrando as águas dum chão por achar

Os peixes-voadores, em cardume, a saltar
- o inconformismo da solidão em tanto mar -
amigos que eles foram em longas horas
exibindo a perícia incansável dali estar
entre o meio de mergulhar e respirar

... e todo o mundo era feito e perfeito
nada por dentro deformava esse jeito
e por fora o oceano prateado a cantar
o céu que se dava a essa doçura de luz
onde menino a vida sempre seduz
e o silêncio sussurrado desses seres a falar


Como era belo o sonho na descoberta
da liberdade entre a inocência e a coberta
e a terra lá, ainda longe, à espera como meta
e essa memória de viagem foi guardada
como um coração guarda dentro do peito
a esperança que não se esqueça do seu feito:


- o sonho construído do momento,
   ver a vida da vida que alimenta!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

o nome

foto: sofia almeida

entre o sonho escolhido 
dei-te um nome e dele 
tu fizeste céu e mar
abriste asas num voo plano
e estendestes o teu doce olhar
na plenitude do verbo amar.

os longínquos horizontes, ficaram tão perto 
- tornas-te-os por dentro do sentir - que 
quando escolhidos, foram precisos.

poderás ser tudo...
poderás  ser até a borboleta a agitar
o mundo que poderás mudar 
nesse extasiante  aroma do ar.

(eu, em terra, sentir-me-ei vivo enquanto o respirar)

(para ti, Sofia)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

rua com saída

da Net



entre a catraia da calçada
rua que não leva a nada
há outra rua diferente
com outeiro de permeio
encostado ao seu seio
cruzando o mundo de gente

outeiro em verde pinheiro
era borlado em lameiro
era esse o seu mundo
mundo de sonho menino
fechado como um destino
onde o sonho crescia fundo

sem horizonte no monte
era a lua a sua fonte
quando a rua com saída
lhe despertava a sede
de rasgar qualquer rede
partir nessa rua de partida

o sonho fez-se gigante
e mesmo sem um turbante
lançou-se à descoberta
das arábias em areias
horizontes sem as teias
e a mente bem aberta

e lá partiu para nunca mais voltar...

(mas isso era só um sonho... leituras 
 da carrinha da Gulbenkian)


rua sem saída

foto: luís castanheira


vagas dispersas de multidões
soltas ao vento que a rua acolhe
mundos fechados entre portões
o olhar vago que não se escolhe

a indiferença passa ao lado

e na esquina sempre fendida
há um rebordo feito de fado
uma sentinela sem a guarida

a chuva cai e o vento segue

ocupam espaços que já não são
ferida a calçada  tudo se perde

mágoa do tempo no tempo incerto
e sem valia fica mais fria a solidão
daquele pedinte aqui tão perto

és perfume da alvorada

foto: luís castanheira

és a noite, és o dia
és a minha sinfonia
és borboleta a voar
na aurora  de magia
tudo o que eu queria
para te puder amar.

(onde a noite se perdia
dentro da minha alegria
no dia que amanhecia)