quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

a noite caída





"Daphne" - Frederic Leighton
Pintor inglês (1830-1896)

as chamas brancas do luar incendeiam a floresta do pensamento nas sombras de corvos enraizados que teimam o seu voo no firmamento do anjo protector.

já a noite caiu e as muralhas do sonho se fecharam nos lençóis de linho bordados pelas mãos que hão-de chegar e o teu corpo deitado na bruma afagar.

dorme sem medos pois o teu querer tem a força das árvores quando o vento sopra as copas do destino e amanhã o sol há-de aquecer o teu suave despertar.

e entretanto eu zelo como se fosses um passarinho do ninho caído na carícia do olhar e nas minhas mãos em útero fechado te podesse aconchegar.

dorme, amor, mas desperta 
por favor, que a vida clama
por ti...e reclama.


domingo, 25 de dezembro de 2016

na mesa do café


DOMINGO, 28 DE AGOSTO DE 2016


na mesa do café

todas as manhãs são manhãs de acolhimento
na mesa do café há sempre um qualquer momento
em que a vida encontra a essência do existir.

trocam-se conversas, comuns a alguns
e as cadeiras, testemunhas silenciosas,
suportam, estóicamente, o peso dos anos, de cada um
mas há, por vezes, almas solitárias
em que só os seus pensamentos
servem de companhia.

hora de almoço, e na mesa ao lado
senta-se a eternidade
corpo delgado, cabelo pintado com raízes brancas da idade
saia pelissada e blusa de outras eras
sem aneis ou alianças
de oculos de leitura, em massa, sobre o jornal das desgraças
come uma torrada, bebe um galão
e tem brincos pendurados, a condizer com a cor das rouxas flores estampadas
na frescura de tantos verões.
acende um cigarro e eu sinto-me mal por espiar.

deixo-a com as costas direitas,
na frágil fragância, da vida ainda com esperança.

lmc

24/12/2016

Porém, passados estes dias e meses , volto a encontrá-la noutra esplanada  e,
sem quê nem p'ra quê, e sem eu dar por nada, eis que a vida dela comigo veio ter...

O tempo decorria suave e aprazível, com as horas a despertarem o apetite do almoço.

Absorvido que estava, na leitura de jornais pelo smartphone, ainda vagamente a oiço, numa conversa ao telemóvel, em inglês.

Acabada a conversa dela e uma pausa minha na leitura, os nossos olhos encontraram um diálogo de ternura.

E foi ao responder a uma observação sobre os maus tratos a animais, que o nosso diálogo começou...

Não vou aqui transcrever nada do tudo que fiquei a saber, nem isso seria correcto.

O que poderei dizer é que, em cada ser humano, há todo um mundo acumulado de vivência e saber...
há um querer e um crer; há uma vida que a outras acabou por acrescer;
há raízes com estórias por dentro, recheadas do seu tempo; e esse tempo foi outro, foi um tempo que só nos livros constam, onde já não existe quem os possa narrar.
São pedaços espalhados, e que por vezes acabamos por "ler".

A nossa conversa deambulou por gerações (nossas) pós I Guerra e Mundial e locais como África, Madeira, EUA, e Portugal Continental  e por onde andaram, viveram e criaram. .

Ficou, assim, viva para nós dois mais um pouco de memória, que a poeira do tempo teima em tapar...
até alguém perto de nós chegar.

(conto de natal...sem nada em especial)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

{...}

{.....}

disse-lhe:
- tens um mundo à tua frente!
ela olho-me e num sorriso matreiro
com a ironia da juventude, perguntou:
- para que quero eu seguir o mundo, se o mundo sou eu...?

(mal sabia eu que todos os mundos são perigosos... )

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

o peso da palavra


cada palavra é
consignada e 
por dentro dela 
é tudo ou 
quase nada.

cada palavra
isolada ou 
em conjunto
criada
a palavra 
é sentimento.

tem vida presa
na fealdade ou 
na beleza.

escrita ou 
falada
cumpre a 
função
de alma gravada
na intenção.

sábado, 17 de dezembro de 2016

um não poema

hoje é branco o poema 
(conjugando as cores)
porque branca é a alma
e não tem físicas dores.
nada pertuba esta calma
neste poema sem tema.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

testamento


foto net


quando na tua mão 
pousar a despedida
do coração que foi 
palpitação sem medida
deixa-me partir 
pois meu corpo vai
mas meu espírito fica
...amor.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

1_4

....1
nem a chuva intermitente
nem o nevoeiro somente
ocultam do chão 
a flor  
repartida por cada olhar
por cada mão.
.....2
e no olímpico monte
há um palácio de memórias 
com deuses de cristais
fingindo céus.
.....3
toda a poesia é sonho 
e utopia
aquela que habita
por séculos ou raro dia
na ventura ou desdita
no (ir)real do corpo e da mente
que chega a ser
sendo porque se sente.
.....4
...e as verdades absolutas 
são o que são.





quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Uma simples carta



Oh, minha mãe
Minha mãe
As dores que o Mundo tem
Foram as tuas dores
Também.

Minha mãe, 
Se hoje te pudesse dizer
O quanto te quero bem
Não haveria mais tristeza
Nos teus olhos de princesa
Aqueles que me viram nascer.

Mãe
Minha mãe
Só agora na ausência
Eu posso compreender
O quanto fizeste por mim
Ao dar-me 
O que eu nunca te dei.

Como fui tão egoísta
Ao querer tudo p'ra mim
Receber e pouco dar
E calar
Quando te poderia Amar?

Era o teu filho querido
E tanto era o orgulho por mim
Que não vias outra coisa
Além do que ficava em ti.

Viveste p'ra me criar
E pouco te pude abraçar.

Hoje
Olho o tempo da manhã
Vejo como jamais o verei
E recordo os teus olhos
Doces
Na ternura que perdi.

São os teus olhos 
Mãe
Que então herdei de ti
Que hoje te olham
Nos olhos da minha filha.

Esta carta
Mãe
Fez-me bem
Falei-te 
Do que nunca te falei
E tanto me comovi...
Como se agora o tivesse feito.

("um homem não chora"... enquanto não é hora)

Até um dia...
Mãe
Ele está cada vez
Mais perto
E é já longo
Tão longo...
O nosso desencontro.

( Dezembro é o teu mês
de ventura e desventura)


domingo, 27 de novembro de 2016

corpos à venda

Hera_deusa grega


de tanto querer
o desejo
morre ao nascer
e o fim
não são os meios
mas os anseios.

estátuas gregas
de mármore deitadas
poisam no jardim
em sonho gelado
e cheiro a jasmim.

já a noite avança
presa ao luar
e o olhar de amantes
toca-se sem se dar.

e só em plena manhã 
de sombras e paixão vã
estendem os braços em verde 
cama, beijando os dias da sede.

.......

o amor, esse dar e receber
não pode ter um só querer...!




sexta-feira, 25 de novembro de 2016

o abismo



foto LuísM

andam gaivotas no meu voar
brancas plumas, junto às dunas
e o mar cansado, espuma de raiva
contra os rochedos, a causar medos.

olho o abismo, de tão perto estar
sinto o tormento, d'ele me olhar.




pássaro ferido

ByThau Blog


(25. nov. _a vítima mulher)

este é o tempo
este o lamento
solto e escorrido
no pensamento
pássaro ferido
no chão caído.

entre paredes
mesmo na rua
há uma vida
em perigo 
ou insegura.

"trezentas e 
oitenta
mulheres
morreram
em dez anos 
vítimas 
de violência 
doméstica.
(e têm nome)"

e cada vida
e todas elas
já são demais.
(e tinham vida)

não serão mães
filhas, irmãs
não mais...
deixaram filhos
deixaram pais.

dizem que o ciúme
é causa primeira
para tamanho crime
como se alguém
fosse de alguém.

um só gemido
fraco que seja
deixa o mundo
algo perdido.

(todos temos direito à vida,
com ou sem amor)



terça-feira, 15 de novembro de 2016

ensaio sobre o vazio

foto Luís

(poema de caminho livre)

ensaio sobre o vazio

é tarde, amor
não venhas de passos rasos
a varrer a ausência das sombras
e olhar meus olhos sem os ver.

abre-me, antes, a madrugada
com chaves de ouro, filtrada
nas cortinas da esperança.

no meu leito estendi as mais
caras mantas de cetim
para deitares as nuvens
do meu ciúme sem fim.

acalma-me esta angústia
destilada e não me deixes
beber tão acre dor.

o dia promete ser lento
e caminhar por alamedas
de intensos odores.


e se quiseres voltar
vem-me buscar

vem e abre-me as pálpebras
seladas, com teus beijos
na húmida lembrança
na suave carícia
da pétala orvalhada pela brisa
do amor
imaginário ou real.

hoje espero-te como nunca te esperei
se é que algum dia por ti esperei
talvez tenha só sido o desejo de querer ter sido...

não tenho certeza de nada e
nada, nada chega a ser
o que tanto queria ter
a ti
como se o universo fosses tu
no vazio que há em mim.

é tarde, amor
mas cedo se torna
ao que nunca existiu.

e o tempo está a meu favor
o tempo e o espaço, coisas
que não me faltam
e a espera é um lugar
onde ninguém se quer sentar
por isso está vago
só eu sou candidato
só eu e mais a minha sombra.

e se não for tarde, amor
e cedo também
tras-me o primeiro beijo
para poder recomeçar
... ou a ti inventar.

sábado, 12 de novembro de 2016

Undine/ou tinha de ser assim...


Undine_Arthur Rackham
(amor de então ou ondas de paixão)

tanto mar, tanto mar
a nos separar...
e o teu nome nos lábios
ondina, sempre a bailar.

era o tempo a cacimbar
tempo de prece no olhar...
à espera do milagre
que tardava em chegar.

veio, qual deusa
mitológica
rolando a beleza
p'ra desassossegar.

cada noite estendida
riscava o seu nome
desenhado em esboço.
sonhado que era
o sonho de tê-la
comigo escondida.

quase via os beijos
com outro trocados
no quintal ao lado
do lado errado.

imaginava as ondas
gigantes de paixão
essa rebentação
que me encharcava
no ciúme do leito
de muralha feito.

eram noites sentidas
mas ao outro dia
ao vê-la, lavava as feridas.

os anos passaram ...
e os putos que éramos
marcados ficaram.

declarei-lhe amor
antigo de então e
sempre renovado
pois com o meu amigo
tudo tinha acabado.
(foi só aquele verão)

falei-lhe do meu ódio
ao robert redford
por o meu vizinho
(esse amigo zé)
ser-lhe tão parecido.

e ela respondeu-me:

- porquê não me disseste
que gostavas de mim?

(que importava agora, se o mar era chão ... )


sábado, 5 de novembro de 2016

líderes...

Asma al-Assade, "Rosa do Deserto", primeira dama syria

como é possível
tanta beleza
frente à terrível
devastação?

a presa
ali à mão
no xadrez político
não passa dum peão.



...e tudo é pó

pedras do caminho
   ardem no silêncio
   do artesão.

palavras por dizer
   de pernas dobradas
e borboletas
   em voos de acasalamento
esperam
   a flor desabrochada.

a claridade fere 
   a página por desbravar
e a cinza solta-se
   da terra queimada.

a vida é cruel
   quando a manada
   segue cega 
   o líder e o seu erro.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Lisboa


fotos LuísM



Olá, Lisboa 
mulher sonhada
e inventada
em cada hora 
em cada rua
no som que ecôa
doce pregão
de uma varina
e o ganha-pão.

E o teu cheiro
são especiarias
do oriente
e outra gente
que degustam
o teu sabor.

E a luz que fura
branca de lua
passa por dedos
de persianas
e nas janelas
entre vielas
tão floridas
e cores tão belas.

A ti, Lisboa
eu canto 
a poesia 
das tuas águas 
e da maresia
desse teu rio
um quase mar
tapando o frio
sereno lar
ao teu olhar
que te embala
e a dor cala.

É teu o fado
na voz só tua
em cada praça
em cada dia
em cada rua.

Navegadora
nos sete mares
e quase à toa
descobridora
doutros olhares.

É teu o sonho
no achamento
acolhedor
de outros povos.

E foi por ti
e a ti deu nome
que Ulisses
quase ficou
preso ao encanto
e se demorou.

Olá, Lisboa...!








segunda-feira, 24 de outubro de 2016

ir e voltar



venho
dum país inventado
onde o mar é oceano
e o sonho foi castrado

venho
dum século e dum ano
onde se sentia o receio
de viver em pobre meio

venho
dum pobre povo perdido
onde a liberdade era mito
no horizonte escondido

e parti
a navegar a lonjura
a descobrir a doçura
e conhecer amargura

porquê não sei o que faria
noutra qualquer harmonia
que não o círculo perfeito

um pouco de terra e mar
com ternura no olhar
e um certo sabor a sal

e regressei 
aonde parti 
mas era outro
que nasci

um impensável desenho vivido

em mapa escrito na pele
rasgado em pássaros de mel
e um rio cantado ao ouvido

...de permeio 
um mundo a traço cheio... 

mas repartido ao andar
entre culturas e povos
de países velhos e novos
há esse imenso mar
que de mim faz de um outro
e muito lugar.



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

tu, alegria



era manhã e tardava
era dia e escurecia
era fome que calava
era sonho e alegria
era um matar do dia
era o desejo
era o beijo
era tudo e se perdia
era o sol que se escondia
era a saudade que via
era tudo que antevia
era a memória futura
era passado e frescura
era o rio que galgava
era a margem que apertava
era a vida que escorria
era... e só a morte temia.

hoje
tu és a minha companhia.



quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Aleppo

foto web


Plantei palavras em gritos de ternura
que só os olhos cerrados não ouviam
as minhas mãos em busca as erguiam
no sonho de um dia abraçarem o mundo.

Mas do céu cairam bombas de amargura
e a morte tornou a cidade em sepultura.

Já o tempo varre o fruto apreciado
e a árvore despida de sentimentos
vê um povo quase todo dizimado.


sábado, 1 de outubro de 2016

beijos amargos

(porque os tempos mudam mas as mentalidades perduram...)

os tempos mudaram e às mulheres
já os beijos não são só roubados;
são sequestrados ou assassinados, 
outras vezes em cacos estilhaçados 

às mulheres já não se bate só com uma flor,
bate-se com o ferro de engomar,
de qualquer jeito, com o que estiver à mão...

quem é que a mandou amar;
de quem é a culpa de ter filhos;
ter de trabalhar, em casa e... por aí fora;
de andar cansada de tanto transporte; e
tantas horas perdidas, no corpo sentidas...?

quem tem de aturar o chefe;
homem, pois claro, que passa a vida a espreitar as oportunidades; e a ver se pesca em águas paradas?

quem tem de contar o magro salário, chegar ao fim do mês e pouco dever?

quem tem medo de perder o emprego por ter nova gravidez?

- ai se descobrem, vou p'ro meio da rua! 

- e logo agora, com esta "sorte" de marido, tanto tempo desempregado,
aos caídos, já sem subsídio?

- e tem sido tão difícil aturá-lo...

- agora dá-lhe p'ra beber, 
não sei onde vai arranjar o dinheiro,
más companhias, lá isso ele tem...
mas se o deixo, vai atrás de mim
até ao inferno  - como se eu não vivesse já no inferno -, 
e tudo pode acontecer...!

- mas que triste sina a minha;

a minha mãe é que tem culpa disto tudo:
pariu-me e fui atirada para esta vida,
sem poder escolher;

- agora, que futuro poderei deixar aos meus filhos?

- olhos-os e revejo-me neles, como me revejo na pobreza que sempre me acompanhou;

- cresci no meio de tantos irmãos, 
alguns foram ficando pelo caminho,
que a fome era uma barreira;

- hoje desabafo, melhor..., hoje grito,
porque no peito dorido nada mais há.

nem as telenovelas e o raio que os parta já me servem de consolação,
onde é que eu tenho tempo p'ra me sentar?

- deito-me p'ra descansar, 
mas a noite também é um pesadelo!

parada
 entre sombras
 na curva da estrada
 aguarda 
 por quem não chegará.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

pizza_ tem nome mas não tem liberdade....




algures na china:

o animal mais triste, que jamais vi em imagens,
foi o deste urso polar, em cativeiro.

com o queixo a tremer, o corpo deitado, e um vidrado olhar, serve um passatempo cruel: o de simplesmente o "admirar".

é o supremo sofrimento, patente a nós e a quem o vá visitar.

a notícia mais importante, de hoje, é a da sua mudança para um habitat próximo do seu natural, em Inglaterra.

porquê,
este meu intermitente desassossego?

porque,
perto ou longe, existe este "inverno do nosso descontentamento".

quisesse eu ignorar tudo isto
e nada mais me poderia sensibilizar.

é por entre estas frestas clausuradas da maldade humana, que o sonho incomensurável da liberdade espreita.

um  olhar sofredor, como este,
pode (e deve) agitar as nossas consciências ...

as dos nossos filhos, essas, são bem melhores do que as dos seus pais.

é nelas que a esperança, num planeta harmonioso, reside.

https://www.animalsasia.org/uk/media/news/news-archive/wildlife-park-offers-new-home-to-worlds-saddest-polar-bear-trapped-in-chinese-mall.html?_utm_source=1-2-2


domingo, 18 de setembro de 2016

folha caída



foto Luís M

teus olhos navegam em barcos de espuma
e o sal dos teus sonhos perdem-se na bruma
teus passos desenham estrelas do mar 
perdidos na areia banhada à luz do  luar.

um dia sonhaste com um porto antigo
embarcando um destino um dia vivido
mas de ti não fugiste como seria esperado
amor centilado que terias de nova chegada
seria outra partida a que o sonho levava

mas é de ti que tens medo, de sentir e  sofrer
um qualquer amor que viesses de novo a ter.

os tempos são outros e os ventos mudaram
como corações de tanto sofrerem cansaram
ficou só um rasto indelével de folha caída
que sempre teve no chão a própria vida.

( - "o poeta é um fingidor...", meu amor!)
....

mas hoje quero segredar-te um outro amor
este nosso vivido no mais puro ardor.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

setembro

foto by sofia almeida


viesses tu minha amada
novamente
neste setembro de alvorada
e como a vez primeira
igualmente
seria clareira.

(ao mês e ao amor)


sábado, 27 de agosto de 2016

o cálice

foto: luísm

vejo-te no alto do penhasco
com o mundo sobre os ombros
e um vago caminhar
por dentro do teu mal-estar

pensas a vida como um destino
contigo nascido

as promessas que fizeste
a um deus desconhecido
não as fizeste a ti
que as terias ouvido

não! esse cálice não é teu
é de alguém que to deu.




sábado, 13 de agosto de 2016

as rosas negras

foto net


a propósito de um artigo, hoje lido nos jornais:


O vosso público, por sua vez, não tem a sensação do perigo iminente - é isso que me preocupa. Como não compreendem que o mundo está a ser puxado numa direção irreversível? Enquanto eles [a maior parte do establishment político-militar ocidental] fazem crer que não se passa nada. Já não sei como hei-de comunicar convosco".

Vladimir Putin


"Estou preocupado, muito preocupado, com que estejamos a caminhar como sonâmbulos para qualquer coisa de absolutamente catastrófico".
Sir Richard Shirreff

....

as rosas de todas as hiroshimas

sangram as negras rosas  da madrugada
asas de corvos em sombras estendidas
- planície do nosso descontentamento -

verdes àguas paradas, entre margens assombradas, nas florestas petrificadas
confunde-se o tom da superfície com prados enriquecidos
e a ponte é uma passagem para o céu de outra miragem

o horizonte é um manto funebre de tempestade
ouve-se ao longe o mar num cadênciado martelar
e a maresia traz um gosto a lágrimas de sal
... no vento nuclear.

já não há como evitar tão densa noite
onde seria dia...
nem um só pássaro sobrevoa as escarpas do além
e este rugido do interior da terra
ouve-se na revoltada planície
como um grito de dor
... não mais crescerá uma só flor.

tacteio essas sombras com mãos caídas
pela áspera rocha vertida na paisagem
e na sombra projectada há pombas brancas agarradas: cinzas e pó de extintas manadas.

manchas de musgo e répteis traçam pinturas rupestres
- natureza viva-morta da vida volatilizada-.

meus olhos já pouco enchergam...
mas ainda vêem os minutos finais do planeta terra...
...e a loucura dos homens...com as suas bombas de auto-destruição.


lmc












terça-feira, 2 de agosto de 2016

este amor

foto by sofia almeida



amei-te...
na doçura polenizada da primavera
na paixão do juvenil olhar

amo-te ...
nos nocturnos acordes da solidão
nos infinitos espelhos da manhã

amar-te-ei...
entre os silêncios mais profundos
e a claridade mais desejada...

.....





domingo, 17 de julho de 2016

entre a terra e o mar...



foto LuízM

Meu sangue é Mar
em corpo de Terra a clamar
e o Poema, qual borboleta, passeia
leve e suave, na brisa duma epopeia.

- Na linha da costa há um sonho embrenhado no pisar e...no olhar!



sábado, 2 de julho de 2016

nuvem passageira

foto Luís M

Tenho à minha frente
o vazio da folha em branco
... em espera
e na mente um corpo de poema
construído
... no abismo.

Tenho esse sorriso louco de quem veste o verso
... do avesso.


terça-feira, 31 de maio de 2016

mãe-áfrica





foto_luízM


logo pela manhã varres a terra 
batida em frente à cubata
com as costas dobradas por anos de lavra.
o vento da noite trouxe as folhas sêcas
como sêca é agora a tua pele.

os teus olhos, já cansados, ainda vêem 
a manhã desperta.

ainda deslumbram o caminho 
que aqui te trouxe e daqui te levará.

sonhas o dia, como outro dia, um dia mais
dentro de tantos que são demais.

o trabalho, os filhos e os netos 
são as certezas que encaras como belezas
sem tempo para pensares as tuas tristezas.

os anos passaram depressa demais e 
dentro do teu mundo, foi só um raio de olhar.
fugazmente, vem-te a lembrança dos teus pais
quando criança, e eras feliz.

hoje terás momentos...
um cigarro de chama na boca
a viajem, a outros tempos, neste lugar...
este mesmo lugar que contigo habita.

muita coisa mudou, desde então, mas
só por fora de ti pouco ou nada mudou
à volta, só mais umas quantas cubatas
num quimbo que pouco cresceu.

décadas e décadas passaram mas
parece que, presas a ti, ficaram.

o rio é o mesmo, nas cheias e nas secas
a chuva aparece e desaparece em momentos 
inesperados, que ninguém esquece
moscas e mosquitos parecem iguais
a outros, em todos os dias, sendo demais.

o trabalho que dá para tudo ser igual...

dia após dia, ano após ano, tu esperaste...sentada
ou dobrada, a trabalhar ou a descansar
a dormir ou acordada, solteira ou amigada (casada)
sózinha ou acompanhada. 

... outras vieram ocupar o teu lugar
na juventude que não mais tens.

os filhos e netos que às costas
carregastes enquanto lavravas, essas outras, hão-de carregar os seus, também.

esperaste...

uma viagem de canoa, rio abaixo 
uma braçada a terras distantes 
mas tão perto caminho que ora fitas 
comprido do teu destino não cumprido.

esperaste, pelo sonho de princesa 
quando era linda a luz e a lua reflectia a tua beleza.

esperaste, por aquele dia onde 
o trabalho não doeria, onde as manhãs 
fossem jardins de sol, onde a imaginação
não era ilusão.

como o calor da picada libertado em tarde de verão.

a noite chegou e a noite tráz mistérios
nas sombras das poucas árvores
projectadas.

são fantasmas que contigo brincam
em sussurrantes alvoradas.

e aqui ficaste... presa ao tempo
presa ao espaço, presa ao sonho
e ao cansaço.

hoje recordo-te como a mais bela paisagem
a mais adorada imagem, numa áfrica menina 
...e sempre felina.

sábado, 28 de maio de 2016

Olhos que não se vêem

- dedicado ao escritor angolano, Pepetela,
e inspirado numa entrevista que ele deu
à revista "Visão" -

foto_net
Menino dos olhos negros
Tão negros como carvão
Marejas a dor sofrida
Da rua que não dá pão.

- e a esperança toda perdida -

Menino dos olhos negros
Com cobertor de luar
Corres a noite estrelada
Com as mãos a abanar.

- e a fome é a única estrada -

Menino de olhos negros
Tão negros como carvão
Snifas durante todo o dia
A gasolina da perdição.

- e o petróleo escorre outra via -

Menino dos olhos negros
Quem te deu tal destino?
Deitas-te sobre a calçada
Com lençóis de desatino.

- e a rua tão esburacada -

Menino dos olhos negros
Tão negros como carvão
Entre a mutamba e a baía
Tens a tua cama no chão.

- e a cidade alta nunca a teria -

Menino...
Não és menino, não
A tua existência é ferida
Na consciência duma nação.

- e a marginal esconde esta vida -



segunda-feira, 9 de maio de 2016

as primeiras letras




um dia...



 onde as mais doces palavras
 para lê-las venhas a indicá-las
 seguindo as linhas do caderno
 com o teu ainda curto indicador
 e soletrares pausadamente 

 cada sílaba como pétalas da flor
 aprenderás que a vida também é  composta  de junções.

mas muito tempo haverá
 para além desse mundo de criança
 onde  também a descoberta se fará  noutras  linhas noutras palavras  ...noutros  sabores
 por vezes com algumas  dores.


segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 de Abril


Clara manhã esta que me abraça
Na esperança da madrugada nunca acabada
Do chão lavrado e da semente
Germinada na mente de linda gente.

Abril sempre...

segunda-feira, 11 de abril de 2016

por uma gota...

photography LuízM

por uma gota de orvalho, eu hei-de ser...

por sobre o campo raso hás-de passar
altiva sombra sem me olhar
e eu, cato silvestre, espalhando aroma
preso ao chão húmido, terra de goma
no infinito desejo de te abraçar.

não mais verás tão doce cor
manhã chegada, desperta dor
não mais terás teus olhos presos junto aos meus
e sentirás o quanto magoam os passos teus.

perde-se o mistério deste querer
mais que o amor, poder viver
mais que o saber, poder voar
sob teu corpo, poder sonhar.

anseio louco, olhos de luz a marejar
estrela d'oiro, para te ver, mais uma vez
só outra vez...a acalentar
tão grande amor, que poderia ser.

como eu te adoro, gota-poema
tão leve e bela como uma pena.

não mais serás o meu destino
não mais terás o meu carinho
preso que estou no teu caminho
sem nunca ser o teu menino.

fica tão longe o húmus acre do teu querer...
que desespero por não te achar
...ou te perder.






sábado, 5 de março de 2016

contemplação



cais de abrigo
cais do meu sentido
paraiso por mim sonhado

e por mim guardado.

é daqui que parto, ficando
e fico, partindo.
é neste canto que sonho

é neste sonho que existo.

ao mar estendo o manto fechado dum olhar
e, ao luar, cirzo as redes do pensamento.


viajei por terras, rios e mares.
subi as serras na imaginação
por dentro delas.

nas planicies poisei dos ventos

...e dos lamentos.
senti aromas nas cores suaves da madrugada.


nada mais quero, nada mais conquisto.

o mundo está todo aqui. basta só isto:

- eu ser !

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

depressão






É de barro, moldado, o teu fato e na árvore mais alta do sonho
penduras o teu velho retrato. 
É com as mãos presas ao destino
que perscrutas outro caminho
e rasgas as vestes, então de linho.

É do alto da montanha, em sobressalto
que o horizonte te parece
perto e nada, nada mais que um deserto.  É nos rios do teu antigo desejo
que a vontade mais estremece
e o mundo se converte em prece.

É na noite mais profunda
que a memória se afunda, no silêncio que se tece.

É numa praia vazia...- não numa noite qualquer - q
ue o drama acontece.
O amor na imperfeição, impede qualquer afecto
- maldita depressão, que transforma o objecto!

Uns dias, sim, outros dias, não...e, num dia não,
a morte, por vezes, é vista como única solução.

(uma mãe, na sua loucura e duas filhas, o mar como sepultura)









terça-feira, 12 de janeiro de 2016

as palavras em flor

foto:net
entre as palavras
semeadas
por alguém
nascem flores
como amores
por meu bem.
(ou outras por mim, também!)

em campo fértil
ou árido
mondadas ou abandonadas
não deixam de ser palavras
aconchegadas
ao meu corpo e
abraçadas.

podem ter ervas daninhas
ou cuidadas como rainhas
mas todas elas são para mim
o princípio e o fim.