quarta-feira, 18 de outubro de 2017

a memória dos inocentes


foto de capa, do jornal "Público", do dia 17.10.2017


“são como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.” 

Eugénio de Andrade

......

memórias

houve um tempo
em que o tempo era nosso
único e por inteiro.

desenhava-se o mundo
ao compasso de cada passo.

era o tempo das memórias:
nos profundos silêncios
alimentavam-se as horas.


  • mas o tempo acelerou

e do registo do tempo
entre línguas de fogo
só as palavras cristalinas sobrevivem.

ardem os ventos aos olhos
crispados 
e na pele cola-se o sal da angústia
das mãos escorre o abandono e a prostração
e o futuro é só uma miragem
tanta e tão forte é a desilusão.

na morte anunciada
há um extinto passado 
na terra queimada.

só as cinzas permanecem
na volátil vontade dos homens.

...e sobre as cinzas
caminha o rosto da nossa culpa.



4 comentários:

  1. Amigo, Luís, escrevemos ambos com as cinzas a pintarem as almas. Cada um de nós no seu jeito próprio, mas ambos a sentir fundo, bem fundo, este mar de chamas sem explicação, justificação..... o que quer que seja.
    Ficam os rostos, os olhos, as lágrimas, a desilusão e dor - e ficam "entre línguas de fogo
    só as palavras cristalinas sobrevivem."
    Pudessem elas ter força e préstimo.

    Obrigada por mais este momento seu. Singelo e belo, no horror que aconteceu.
    Beijo de luar, meu amigo.

    ResponderEliminar
  2. a rasar o "belo horrível" teu poema
    sensibilidade rara e muito talento nessa evocação do "rosto de nossa culpa"

    caloroso abraço, meu amigo Luis Castaheira

    reabri os comentários - espero contar a merecer a tua presença amiga

    grato

    ResponderEliminar
  3. Escrever nas cinzas a dor que sentimos
    Abraço

    ResponderEliminar
  4. A nossa culpa inscrita nas cinzas e no olhar de todos os que sofrem...
    Magnífico poema, Luís.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

    ResponderEliminar