quarta-feira, 25 de outubro de 2017

de um a dez...

1
deste cálice 
a transbordar
- bolhas, espuma, líquido -
erótico desejo 
bebe-se o beijo
e sacia-se
o corpo
até à bebedeira.

- não perguntes 
"- porquê?"
bebe comigo!

.....

2
não digas a ninguém
quais os sentidos
que teu olhar contém:

nestas coisas do coração
há sempre alguém
seguindo em contra-mão.

....

3
sei que és tu
no dia
de bruma
na noite
cerrada

e eu
navio sem mapa
navego à vista
desarmada.

.....

4
poe-se o sol
diz-se...
mas não:
sou eu
que giro ao contrário.

......

5
nada acontece
neste dia que entardece
e, no entanto
amanhã
tudo se esquece.

.....

6
já a tarde é finda
e o trabalho feito

a terra repousa
com suor regada

voaram as horas 
e o pensamento

é longa a distância 
da ceia que espera

só os sinos apelam
ao adiado regresso.

.....

7
escrevi-te uma carta
a pensar na ausência
mas todas as palavras
foram escritas ao vento.

amanhã 
ponho-me a caminho
e regresso ao carinho.

....

8
- fala-me de ti
já não te ouvia à muito tempo
estavas aqui
e eu...
longe 
perdido de mim.

.....

9
"final dum ciclo, começo doutro".

este é outro 
o tempo
que já não é nosso
nem do vento.

há um grito ou lamento
de fera 
nos sucalcos da serra
ferida
que ferra
em línguas de fogo
a vida como era.

.....

10
vivi num bairro
onde as ruas tinham cores
no nome e nos amores:
amarela
dos teus olhos à janela
azul
do teu céu no meridiano sul
verde
no salto da idade sem rede
vermelho
no vestido em dobra do teu joelho
rosa
dos nossos beijos escritos em prosa

mas o lugar que eu (adorava) mais gostava
era do Largo das flores
sem canteiros
sem raízes
sem cores
onde descobria outros amores.

.....





4 comentários:

  1. De 1 a 10 formas de dizer uma vida, de dizer amores e desamores, de dizer o tempo que passa e, com ele, os caminhos que trilhamos. Amigo Luís, que jamais lhe faltem os "Largos das flores", onde há sempre lugar à descoberta de novos amores. Novos desafios e experiências.
    Uma "contagem" fluida e feliz, como tudo o que escreve.

    Beijo de luar

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  2. gostei muito do poema, caro Luís Castanheira
    evoquei antigos "rimances" (?) (Sá de Miranda, Camóes e outros) que tanto engrandeceram a Literatura portuguesa e cujos ecos se faziam ouvir na "loas" e cantigas populares (antes da TV arrasar tudo).

    forte abraço, meu distinto amiga

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  3. distinto "amigo", está bom de ver.

    sorry

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  4. Um poema a dez tempos...
    "e eu
    navio sem mapa
    navego à vista
    desarmada."
    Gostei tanto...
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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