quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

a gota...

  • foto by luísm



abracei uma gota cristalina
sem tempo e sem medida
sem forma ou distância
corpo-matéria na tabela dos sentidos.
era dezembro a amanhecer
da serra em brumas a perder
e, no entanto, era preciso...
era preciso cantar.

é este delírio, este espanto
este sentir e não tanto...
este querer e me perder
no horizonte sem me haver.

é a manhã a descer
entre sombras por nascer
uma luz que se advinha
sem que a possa chamar minha.

e, no entanto, abraço a gota
cristalina, pura e tão fina
mais parece um olhar
que a teu corpo quer chegar.

e, este mar, agitado sem chegar
não invade o silêncio a marcar.

só as flores repousadas na jarra
dão comunhão na existência
duma qualquer razão.

lm_28.12.2017

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

naquela mesa



(hoje, em especial, à memória de meu Pai)



Naquela Mesa
Nelson Gonçalves




letra:
Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

natal(idade)


Para os Amig(os)as:

Boas Festas e Ano Novo Pleno

imagem net


escrevo o teu nome no chão do meu olhar
com as estrelas de ontem a pesarem anos de solidão
e a terra, do céu infinito, não é mais do que um grão.

antes de seres, vais renascer, tantas vezes quanto outros quererão
mas, aos teus pequenos ombros, menino, esse grão, será toda uma imensidão.

na crença de alguns, tens o destino como missão, ao abraçares a dor na esperança da salvação.

LuísM_ 21.12.2017

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

dezembro


(a ti, Mãe)
"Mãe"_almada negreiros


Pássaro exposto
Aos perigos
Nascido
Do ninho
A voar.

Ponto-a-ponto
Cordão umbilical
Doutro chão.

O primeiro chôro
A cama de colo
E os braços 
De afectos
E o cheiro a leite 
O aconchego materno 
A fome e o calor
Do  amor
Os corpos inteiros
Na transição dos respiros.

Úteros suplentes
E a voz doce
No Tempo
Agora a marcar
A Vida
Nova
Que se recria
Até outra cria.

LuísM_12.12.2017



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

curta fábula de natal (para os mais pequenos)


queria o poeta saber, o que diria o mar,
dum poema, na areia escrito,
ao luar.

e o mar, no seu leve murmurar,
perguntou ao vento, o que achar,
deste insólito pedido.

este, perguntou às ribas da terra,
o que deveria julgar, 
e a terra disse, que entre ela e o mar,
nada poderia habitar.

e o vento disse ao mar, que na dúvida, o iria apagar.

então, o mar perguntou ao sol,
o que deveria responder,

e este disse:

- por ninguém saber ler nem escrever,
e só de ouvido, gostarem de cantar,
deixá-lo estar...
não vá a lua deixar, o poeta de se inspirar!

e o poema foi inscrito...
...na figura dum coração.




LuísM_13.12.2017

sábado, 9 de dezembro de 2017

o guarda-rios

«Toda a noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és talvez alguém que se finou!...»

Florbela Espanca

guarda-rios, foto da net


*o guarda-rios*

Já não sei
quantos rios foram meus.

As águas formam correntes 
nas veias e dispersam as margens do tempo

Ao largo passam barcos 
carregados de sonhos

E o Solitário guarda-rios
de lodo no cais
faz-lhes sinais para acostarem
e com eles o levarem
mas dizem-lhe que não há mais lugar.

LuísM_09.12.2017

sábado, 2 de dezembro de 2017

mãos sujas

tuas mãos sujas da terra
são mais dignas
que as limpas da guerra.

oh, hastes vergadas em mim
de só baixar a cabeça
a plantar um jardim.

LuísM_02.12.2017